Prólogo

Colégio Padre Anchieta - Dia 20 de Julho, 20:00

Garotas de vestido xadrez, com pintinhas no rosto e maria chiquinhas, os garotos de chapéu, calça jeans e botina. Festa junina era para ser um evento feliz, regado de risadas e do cheiro das comidas deliciosas iluminado por uma fogueira, era isso que todos da escola esperavam, não luzes dos carros da polícia e o som das sirenes ensurdecendo a todos.
Poucas pessoas conseguiram ver o corpo e o estado deplorável dele, mas todos conseguiram vê-lo entrando no carro da ambulância, coberto por lençóis; ninguém ia perder a oportunidade de ver aquilo, naquela cidade pequena seria praticamente um fato histórico. O garoto prodígio da escola, assassinado no meio da festa junina.
— Qual é? Para de mentir todo mundo desconfia de você. — sussurros eram ouvidos na parte de trás da escola.
— Você sabe que poderia ser qualquer um.
— Você diz isso para aliviar sua culpa? Você é declaradamente o "inimigo" dele, nemesis. Ninguém teria mais motivo que você. — a voz acusava.
— É por isso que eu sou o menos provável — ouviu-se um suspiro impaciente — você acha que eu sou tão idiota a ponto de matar um cara sabendo que eu ia ser o primeiro suspeito? — disse entredentes já sem paciência.
— Quer que eu seja sincero? Acho.
— Você diz para que eles não te coloquem como suspeito ou pra ferrar a minha vida? Porque você mais do que ninguém sabe que todos dessa porra de escola tem um motivo pra odiar ele.
— Todos menos eu.
— Acha que eu sou igual os mongos que andam com você? — a voz aumentou um pouco sem deixar de ser um sussurro — Que eu vou cair nesse papo de melhores amigos? Talvez ele saiba tanto sobre você que faria com que você fosse a pessoa com mais motivos para odiar ele.
Houve um silêncio, os rapazes ainda ouviam o som das sirenes policiais na frente da escola, sabiam que não tinha muito tempo até que chamassem um número considerável de pessoas a serem interrogadas.
— Eu sei que se te interrogarem você não vai facilitar pra mim, vai contar mais e mais mentiras querendo que eu seja o principal suspeito, mas eu também não vou facilitar para você, nem 'pros seus amiguinhos. — a voz soava ameaçadora.
— O que você vai dizer, ein? Vai dizer que todo mundo odiava ele? Que ele sabia demais sobre todo mundo e por isso que ele morreu? — a outra voz rebateu com raiva — A gente não 'tá na porra de um seriado americano! — o tom de voz se perdeu deixando de ser um sussurro — É mais fácil acreditar que foi você o cara com quem todo mundo sabia que ele mantia uma inimizade do que sequer pensar na possibilidade que qualquer um da escola poderia ter matado ele.
—Cavalheiros — um policial interrompeu a conversa secreta que estava ocorrendo — o que estão fazendo aqui?
—Conversando — os dois responderam ao mesmo tempo.
— Poderiam me acompanhar até a frente da escola, por favor? — o policial disse pacientemente.
Os dois assentiram e seguiram o policial, aparentemente o resto da conversa ia ficar para depois.

Delegacia - Dia 20 de junho, 22:00

Quando Marcos entrou na delegacia ele percebeu que Tiago não era o único que o acusava, aparentemente todos da escola, ou talvez todos da cidade o consideravam suspeito pelo assassinato.
Ele viu as pessoas cochichando e apontando, ouviu a palavra vingança e os olhares cheios de algo parecido com asco e desgosto direcionados para si. Sua mãe apertou seu ombro com força, como se o confortasse  fazia tempo que ela não transmitia um sinal de conforto; já seu pai tentava se esconder de todos os olhares como se tivesse vergonha de estar ali, de estar ali com Marcos.
Sentou na cadeira esperando ser chamado para o que esperava que fosse um interrogatório, fez uma lista do que falar exatamente para os policiais, não queria gaguejar e parecer nervoso, nem parecer confiante demais.
Ele se remexeu desconfortável, apertou a mão da mãe com força, se sentindo extremamente inseguro de uma hora para outra. A mãe correspondeu o aperto e acariciou sua mão com o polegar tentando mostrar carinho e suporte, o pai que estava no celular olhou a demonstração de carinho dos dois e suspirou levemente frustrado, depois apertou o ombro de Marcos, nem ele nem o próprio pai sabiam se aquilo havia sido um gesto de carinho e de afeição ou se havia sido uma repreensão silenciosa.
Tentou recapitular o seu dia: acordou, foi pra escola, voltou pra casa, se arrumou, foi para a festa junina, viu o corpo de Davi sendo levado pela ambulância, foi prensado na parede e acusado de homicídio, estava na delegacia sendo acusado por vários olhares.
Okay, dava pra administrar.


Comentários