Vento
Ela era como vento.
Às vezes tão ausente que eu me sentia como se estivesse caminhando pelo deserto, em meio à secura e ao calor árido que fazia a pele coçar. Os dias sem a presença dela eram agoniantes, ela sumia sem rastro e sem esperança de voltar.
Como uma brisa tímida ela me enchia de esperanças, como se eu tivesse saindo do deserto, às vezes por uma mensagem, dizendo que estava com saudades ela aparecia. Tão rependinamente quanto sua chegada, era sua saída; assim ela me deixava com a garganta seca na secura do deserto de novo.
Como o entardecer no deserto ela aparecia como brisas, mandava mensagens mais frequentes, perguntava se podiámos nos encontrar, e eu tentava me agarrar aquela maré de ventos que acariciavam minha pele, ardida pelo calor.
Nós encontrávamos, ela sempre com aquele olhar inocente, que tempos depois eu fui perceber que eram dissumilados. Ela se afastava, tímida, dizia que não gostava de contato, e eu respeitava.
Lá pela décima tragada forte daquele vapor cheio de nicotina, a pressão dela abaixava e ela ficava tonta e engraçada, manhosa ela se escorregava e deitava-se em mim. Nesses momentos sua presença eram como fortes ventos do litoral, refrescavam minha pele e faziam carinho em minha alma.
Depois, ela mordia os lábios, me encarava nos olhos, sorria como uma criança travessa e pedia um cigarro, eu dava. Ela nunca sabia tragar, sempre tossia e reclamava do quanto era ruim, depois eu ensinava, ela tragava certo, mas repetia que era ruim, embora ela vivesse pedindo por mais.
Achei que ela era como os outros ventos, ou como as brisas da manhã, reclusas e sempre procurando sair das asas dos pais, se rebelando por atos como fumar e beber ocasionalmente para se sentirem donas da própria vida.
E eu percebi, ela não era uma brisa, nem um vento comum, nem como os ventos quando o mar estava de ressaca, nem como os ventos que faziam tempestades de areia no deserto, ela era como um tornado, carregando tudo em volta e causando destruição.
Devia ter desconfiado que aquele olhar inocente trazia maldade por trás, devia ter desconfiado do jeito que ela falava que sentia saudades, ou como ela me abraçava e sussurrava aquelas três palavrinhas, devia ter desconfiado que os cigarros tão ruins pareciam mais atrativos para ela do que a minha presença.
Ela me tinha no centro do seu furacão, e eu era iludido pela calmaria que havia lá. Mas quando ela me deixou pela última vez, eu não me senti no deserto de novo. Me senti em meio uma cidade destruída e abandonada, sem reparo. Eu soube que ela tinha feito aquilo, destruído tudo, sem deixar nenhum amparo.
Estou cansado das brisas e dos ventos, porque depois dele vem os furacões.
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